Conversão: Urgência de Amor



Convida-vos Deus hoje a fazerdes o bem, fazei-o hoje; porque é possível que amanhã não tenhais tempo, ou que Deus não vos chame mais.
Se por desgraça tendes empregado a vida passada em ofender a Deus, proponde-vos, a exemplo de Ezequias, fazer penitência desse abuso no resto da vossa vida: Repassarei na vossa presença todos os meus anos, na amargura da minha alma (Is 38,15).
Prolonga-vos Deus a vida, para que repareis o tempo perdido. Quer o Apóstolo que reparemos o tempo, pensando nos dias maus: que aproveitam o tempo, pois os dias são maus. (Ef 5,16). Santo Anselmo explica assim: “Resgatareis a tempo, se fizerdes agora o que em outro tempo deixaste de fazer por negligência”. Apesar de S. Paulo ser o último dos apóstolos, tornou-se o primeiro, pelas grandes obras que operou, a partir da sua conversão. É o que S. Jerônimo nota.
À falta de outros motivos para nos estimularmos, devíamos ao menos considerar que a cada momento podemos aumentar a nossa fortuna eterna. Se vos fosse outorgado como propriedade todo o terreno que num dia de marcha pudésseis circuitar, com que diligência não alargaríeis os vossos passos? Podeis a cada instante adquirir tesouros eternos, e perdeis o tempo!
Não me digais: “O que podia fazer hoje, também poderei fazê-lo amanhã”. Não, porque amanhã já o dia de hoje será perdido para vós, e não voltará mais. Quando S. Francisco de Borja ouvia falar das coisas do mundo, elevava o seu coração a Deus em santos Afetos; se depois lhe perguntavam a sua opinião, não sabia o que havia de responder. Aos que disso o censuravam, replicou-lhes: “Antes quero passar por simplório do que perder o meu tempo”.
(...)

Não, Deus meu, não quero mais perder o tempo, que por vossa misericórdia me dispensais. Deveria a esta hora gemer inutilmente no inferno. Dou-vos graças por me haverdes conservado a vida; quero no resto dos meus dias viver somente para vós.
Se já estivesse no inferno, sofreria, mas sem esperança e sem fruto. Quero chorar as ofensas que vos tenho feito, bem seguro de que me perdoareis, desde que as chore; porque o vosso Profeta me deu a certeza disso: Ele sem dúvida terá compaixão de ti, tão depressa te movas às lágrimas, tocado do arrependimento (Is 30,19).
Se já estivesse no inferno, não poderia mais amar-vos, e agora amo-vos e espero amar-vos sempre. Se estivesse no inferno não poderia pedir-vos graças; agora, ao contrário vós me dizeis: Pedi e recebereis (Jó 16,24).
Visto que ainda é tempo para mim de vos pedir graças, ó Deus da minha alma, duas vos peço: dignai-vos dar-me a santa perseverança, e o vosso amor; depois, fazei de mim o que vos aprouver. Fazei que, a todos os momentos que me restarem, sempre me encomende a vós, ó meu Jesus, dizendo-vos: “Senhor, assisti-me. Senhor, tende piedade de mim; fazei que não vos ofenda mais; fazei que vos ame”.
Ó Maria, minha Mãe santíssima, alcançai-me a graça de me re­comendar a Deus sem cessar, e de lhe pedir a perseverança e o seu santo amor. 

A salvação é o nosso negócio mais importante

De todos os nossos interesses, é a salvação eterna o mais instante; e, apesar disso, é dele que os cristãos menos cuidam. Para conseguir um emprego, para ganhar uma demanda, para realizar um casamento, não há esforços que não se empreguem, não se perde um momento: pedem-se conselhos, tomam-se precauções! Não se come, não se dorme em sossego.
Mas que se faz e como se vive para assegurar o negócio da salvação. Nada se faz, ou antes, faz-se tudo para perdê-lo, e a máxima parte dos cristãos vive como se a morte, o juízo, o inferno, o Paraíso, a eternidade, não fossem verdades da fé, mas fábulas inventadas pelos poetas.
Se se extravia um cavalo, um vil animal, todas as diligências se fazem para encontrá-lo! Se se perde uma demanda, uma colheita, que pena se sente e com que ânsia se trata de reparar os danos!
Perde-se a graça de Deus, e dorme-se, folga-se, procuram-se recreios. Todos se envergonham de serem tidos por negligentes nos negócios do mundo; e ninguém cora de lançar ao esquecimento o único negócio digno de toda a atenção, que é o da eternidade! Reconhece-se que os verdadeiros sábios são os santos, que só cuidam de se salvar, e pensa-se em tudo, menos em salvar a alma!
Quanto a vós, irmãos meus, diz S. Paulo, cuidai somente do que tendes a fazer, da vossa salvação, que é o vosso grande e supremo interesse. Procuremos, pois convencer-nos bem destes pensamentos: a salvação é o nosso negócio mais importante, negócio único e cuja perda seria irreparável.
É o negócio mais importante. Nenhum, com efeito, tem consequências tão graves: trata-se da alma cuja perda é uma ruína total e absoluta. Como nota S. João Crisóstomo, a nossa alma deve ser mais preciosa a nossos olhos que todos os bens do mundo. Compreenderemos isto sem dificuldade, desde que recordemos que Deus entregou o seu Filho à morte, para salvar as nossas almas: Tanto amou Deus o mundo, diz o próprio Jesus Cristo,que lhe deu o seu Filho único (Jó 3,16). E o Verbo eterno não se dedignou de resgatar as almas a preço do seu próprio sangue, o que S. Paulo nos mostra dizendo: Vós fostes resgatados por grande preço (1Cor 6,20). Não parecerá depois disso que o homem vale tanto como Deus? É a reflexão de Santo Agostinho: “À vista do elevadíssimo preço que custou o resgate do homem, parece que ele vale tanto como Deus”. É o que a palavra de Jesus Cristo deixa ver: Que preço dará o homem pela sua alma (Mt 16,26). Com efeito, sendo esta alma de tão alto valor, se vier a perder-se, que tesouro dará em troco para recobrá-la?
Tinha razão S. Filipe Néri em taxar de louco quem não trabalha na salvação da sua alma. Se na terra houvesse duas categorias de homens, uns destinados à vida eterna e outros não, e estes vissem aqueles todos embebidos nas coisas deste mundo, em buscar honras, bens e deleites, por certo lhes diriam: “Ó vós, como sois insensatos! Podeis adquirir bens eternos, e pensais nestas coisas miseráveis e passageiras? E por elas vos condenais a penas eternas na outra vida? Deixai que nós corramos atrás desses bens frágeis, nós desditosos para quem tudo acaba com a morte; mas vós!”.
Não é porém assim, todos nós somos destinados a uma vida sem limites; como é possível pois que tantos e tantos comprem os pobres gozos da vida presente, a preço da sua alma? De onde vem, pergunta Salviano, que crendo todos os cristãos na existência do juízo, do inferno e da eternidade, essas verdades terríveis lhes causam tão pouca impressão?
Ai, meu Deus! Que uso tenho feito dos anos, já numerosos, que me tendes dado para trabalhar na minha eterna salvação? Vós, Redentor meu, remistes a minha alma a preço do vosso sangue, e a entregastes nas minhas mãos, impondo-me a obrigação de a salvar, e eu tenho-me aplicado a perdê-la. Ofendendo Aquele que tanto me tem amado! Bendito sejais por ainda me dardes tempo para reparar as minhas perdas imensas: perda da minha alma, perda do tesouro da vossa graça; eu as deploro, Senhor, e as lamento do íntimo do meu coração.
Perdão, meu Deus, estou resolvido a renunciar de futuro a tudo o mais, à própria vida, se necessário for, para conservar a vossa amizade. Amo-vos sobre todos os bens, ó Bem supremo, digno de um amor sem limites, e estou na firme resolução de vos amar sempre. Vinde em meu auxílio, meu Jesus, para que esta minha resolução não venha a ser como as anteriores, que se converteram em verdadeiras traições. Antes a morte do que tornar a recair nos meus pecados, e cessar de vos amar.

Ó Maria, minha esperança, assegurai-me a salvação, obtende-me a santa perseverança.


Por Santo Afonso Maria de Ligório, “Máximas Eternas”, p. 109-113.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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